domingo, 11 de novembro de 2012

P*


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Pauliane Godoy - 19 de janeiro de 2011

Página do Diário de Marie Cardona**


Argélia, 10 de junho de 1941.

Há uma semana Meursault foi executado. Sinto-me perdida. Não consigo entender como ele pode deixar isso acontecer.
Quando penso em quando o conheci percebo que sua liberdade foi algo que me despertou. Penso que ele era livre, pois não importava-se em ser “correto”. Esse termo é muito complexo, talvez a sua não convencionalidade fosse sua autonomia, e isso me surpreendia. No tempo em que trabalhei com ele no escritório pude sentir esse sentimento crescer e isso é maior do que eu possa definir.
Meursault, de alguma forma, mostrava-se também interessado por mim, mas definir o que ele sentia sempre foi indefinível. Devo confessar que inúmeras vezes eu ficava triste com a forma como ele se comportava (creio que esse termo não possa ser adequado a ele).
Às vezes era muito estranho achar que ele estava comigo só porque eu era sua amante. Será que eu era apenas um objeto de seu desejo? Eu queria ser mais; eu queria estar ao seu lado como sua esposa.
Depois que a sua mãe morreu essa vontade cresceu, pois eu achava que ele gostaria de ter uma companheira. Eu achava que seria muito estranho mencionar esse assunto depois do ocorrido, já que sua perda havia sido recente. Apesar de nunca ter conhecido a mãe dele, para mim a perda de alguém tão próximo abalaria qualquer um. Mais uma vez Meursault me surpreendeu. Não demonstrou sofrimento algum, pelo menos da forma que eu esperava. Apesar de achar seu “não sofrimento” estranho, como tratava-se do Meursault, eu pensava que ele não gostaria de demonstrar seus sentimentos.
Eu tentava entendê-lo. No seu julgamento levaram em consideração o fato dele não ter demonstrado sentimentos (que seriam esperados por todos) no velório de sua mãe. Meursault não se defendeu. Por quê? Como ele pode ficar tão passivo diante de tais questionamentos? Como podemos julgar a forma como alguém demonstra ou não os seus sentimentos?
Talvez fosse de sua natureza. Às vezes seu comportamento aparentemente aquém me incomodava, como no dia em que seu chefe o ofereceu uma promoção em seu emprego e ele disse: “tanto faz”. Além disso, quando eu o perguntei se gostaria de casar comigo ele disse que sim. Fiquei muito feliz, pois para mim aquilo era o sinal de que eu era importante para ele. Quando o perguntei se me amava ele disse que não. Fui mais longe e o questionei como poderia casar-se comigo se não me amava e ele afirmou: “tanto faz”. Como assim “tanto faz”? Naquele dia eu morri um pouco. Na realidade, a minha relação com o Meursault era um morrer e nascer a cada dia. Mas mesmo assim eu o amava. Mas eu não pude me casar com ele.
Eu nunca gostei do Raymond. A forma como ele tratava as mulheres me incomodava e eu não gostava da relação do Meursault como ele. Parecia que eu presentia o que aconteceria naquele dia na praia; o dia em que Meursault matou o árabe e abriu a porta do seu inferno.
Eu acredito que realmente o calor o desorientou, mas ninguém mais acreditava e o que eu poderia fazer para ajudá-lo?
Na prisão ele mantinha uma postura apática diante da situação. Ele não lutou por sua vida. Mesmo diante do meu sofrimento ele não parecia importar-se comigo. Parecia que não sentia minha falta. Será que ele tentava me proteger? A cada vez que o via no tribunal sofria por sua ausência ao meu lado.
Creio que ainda é cedo para que essa dor cesse. A dor da ausência ainda é muito recente. Confesso que nunca o entendi verdadeiramente. Talvez ele mesmo não se entendesse e sentia-se um estrangeiro nesse mundo. Mesmo diante dos últimos acontecimentos eu continuo o amando e o admirando, pois penso que na verdade ele nunca foi respeitado por não se conectar ao mundo.

Pauliane Godoy - 17 de Dezembro de 2011
Texto escrito para o encontro do Grupo Prazer da Leitura

**Marie Cardona é a personagem do livro L'etranger de Albert Camus. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

"Como assim???"
Ela pensou durante horas o que teria causado aquele incômodo. Não bastava que fosse inteligente e interessante, não, isso não era o suficiente. Apesar de querer fugir daquela sensação o pensamento era recorrente e ela não saberia explicar de onde surgia.
A comparação sempre foi algo que voltava em sua vida e percebeu que comparar-se é uma forma de crítica e no amor não há lugar para elas.
E por que a maioria das outras parece tão pouco interessantes? Mas o que torna alguém interessante? 
E por que se preocupar em padrões e razões alheias?
A partir daquele momento ela percebia que havia o desejo; o desejo de ser uma mulher diferente, mais livre e pronta para o que a vida tinha a oferecer!

06/11/12

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Martha* disse: "O tempo não cura nada. O tempo só tira o incurável do centro das atenções." E como ela estava certa. De uma forma bastante estranha me pego concordando plenamente com essa declaração, ou seria uma constatação?
O que leva alguém a ainda ter alguns sentimentos que ao mesmo tempo trazem sensações tão boas e tão "estranhas"? Como lidar com situações que muito além da esfera racional são completamente irracionais? 
O que seriam sensações "estranhas"? rs Eu mesma pego-me a questionar isso também. De uma forma estranha ( perdoe-me pela repetição,mas nesse momento essa palavra me ronda) é uma raiva inexplicável, talvez um pouco novela mexicana rs, não necessariamente nessa ordem. 
Perceber-se tão à mercê de si mesmo é tão incomodo. Porque depois de tanto tempo você ainda se pega lembrando de momentos e sensações que na esfera da realidade não te ajudam, apenas te fazem se culpar por ser daquele jeito, naquela época? Por que eu não tenho a cabeça que tenho hoje naquela época? Será que fiz a opção certa? E se tivesse agido diferente, quão diferente eu estaria hoje? Mas será que se tivesse agido diferente eu seria a pessoa que sou hoje? Porque de uma forma racional eu não teria passado por todas as experiências pelas quais passei e talvez não tivesse a cabeça de hoje. Então você se percebe em um ciclo de questões que não mudam em nada sua vida de hoje. 
Mas na vida nem sempre tudo funciona de forma prática, penso que na maior parte das vezes não é.
E quanto mais você pensa percebe que o tempo que você acreditava ser o "melhor remédio" para tudo, na verdade não curou, apenas te fez por um tempo achar que você estava certa, bem "dona" de si e de suas decisões e quando essa sensação reaparece você vê que a sua certeza era apenas uma tentativa de fuga.
Então você se pergunta: e o que eu faço com essa "nova informação"? De que ela me serve? 


Pauliane Godoy





*Martha Medeiros


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Repetition of you (2) in my mind. Memories that come from distant images, shadows and dreams that are so confuse, but you are always there. So sincerely I wait patiently for an answer that hasn't come and you still live in my mind. For a moment I think it's going to be different but the fear of those arguments come with me and I can't avoid it. I have tried to rid myself of this and the feelings that surround that situation. I love you (2), but sometimes you made me suffer a lot. I want to scream!!!

Pauliane Godoy - July 01st,2011.

sábado, 30 de abril de 2011

A etiqueta

De onde vem isso? Essa nostalgia que aparece do nada e por motivos aparentemente tão tolos? E eu que até esse momento achava  era um sentimento superado e  agora ele volta de uma forma diferente; não tão forte, mas ainda aparece? Por quê? Ainda mais depois de anos? E sem motivo aparente. Retirando a etiqueta de uma blusa nova me recordo de algo que tem relação à etiquetas, (roupas e sociais) mas por quê? Será que isso é bom ou ruim? À primeira vista, me parece algo estranho, nem ruim nem bom, mas me sinto desestabilizada em meus sentimentos. Será que isso é parte de um processo? Bom, isso de algum modo me move e mobiliza e me faz questionar sobre um tema: A liberdade.
Há alguns dias uma aluna me escrveu: "Professora, escreva sobre a liberdade, principalmente aquela que o ser consegue sobre si mesmo." Acho o tema bastante interessante e quando li a sugestão achei importante me dar um tempo para poder elaborar escrever. Parecia fácil, mas agora, depois desse acontecimento "da etiqueta" eu me coloco a questionar o que é esse sentimento e como talvez ele seja algo contrário a essa liberdade que eu quero sentir.
Mas creio que esse tema fica para outra texto. Por agora vou deter-me a questionar o que estou sentindo e ... (nem eu sei o que fazer com isso, mas talvez nem haja algo a ser feito.)

Pauliane Godoy  P***_:)

Juiz de Fora, 30 de abril de 2011.


L'ÉTIQUETTE

domingo, 20 de março de 2011

P.S

"Tu te tornas eternamento responsável por tudo aquilo que cativas".Creio nessa frase e sinto fortemente o que ela significa e na última semana fui levada a pensar e sentir cada vez mais o sentido dessa frase.
Ano passado tive uma experiência muito enriquecedora em uma escola municipal aqui de Juiz de Fora. Por várias razões, não tive a oportunidade de voltar a lecionar nessa escola. Apesar de querer muito não deu. Fiquei triste, mas tenho certeza que as coisas ocorreram da forma que deveria ser. Muitos desses alunos me enviavam mensagens perguntando se voltaria para o colégio. Assim como eu, muitos se mostraram tristes por não podermos estar juntos esse ano novamente. Na última semana, porém, recebi uma mensagem de uma aluna muito querida que me disse que estava sentindo muita saudade de mim e que não estava gostando da professora que havia voltado para a escola. Fiquei feliz, afinal, saber que seu trabalho é valorizado é muito gratificante, mas por outro lado, não quero impulsionar qualquer comportamento de incentivo à não aceitação da outra professora. Isso é uma postura antiprofissional que não apoio. Respondi sua mensagem com muito carinho e disse que as coisas acontecem da forma que tem de acontecer e que devemos aceitar e compreender os acontecimentos e que ela tentasse ver as qualidades da outra professora. Achei que as minhas palavras tinham a tranquilizado, pois lidar com essas coisas da vida, faz parte da vida rs. Porém, adolescentes, como é característico, ou amam ou odeiam e quando amam, amam de verdade. rs 
Fui então surpreendida com sua resposta "o que eu não aceito tia Pauli é vc ter entrado na nossa vida e dps ter saído assim. Eles não te deixaram voltar pq sentem inveja de vc pq te amamos. sinto muita sua falta!". Ao ler sua msg, foi um misto de alegria e tristeza, pois naquele momento eu pude perceber tão claramente a minha responsabilidade em relação àquele amor tão grande. Muito gratificante e ao mesmo tempo, que responsabilidade! rs uma responsabilidade de saber que como professora eu posso ser amada e esse amor é tão especial que não posso deixar que simplesmente eu vá embora da vida deles! Teoricamente isso é fácil de ser entendido, mas SENTIR isso é mais forte. 
E como explicar, que as coisas acontecem, mesmo que a gente não queira, mas a vida às vezes leva as coisas para um outro rumo? Esclarecer que a minha volta passava por questões burocrática e administrativas que vão muito além de "inveja" rs Mas lembrando ela nem tem noção do que é isso do mundo dos adultos, afinal é uma adolescentes e para ela as coisas parecem muito mais simples do que são. Respondi e tentei mostrar que não iria "sumir" da vida dela, pois o que vivemos vai ficar pra sempre marcado. 
"O que eu quero te mostrar é que EU ESTOU AQUI! ASSIM COMO VOCÊ MOSTROU ESTAR AQUI por mim e isso é o importante!
E diante desse fato, pude refletir sobre outros acontecimentos da minha vida. Às vezes queremos que as pessoas ajam conosoco da forma que achamos que agiríamos se estivéssemos em determinada situação e eu várias vezes me pego nesse movimento. E muito recentemente vivi uma situação assim com alguém que eu achei que poderia ter agido de forma diferente em relação a mim.Mas o que concluí diante do que aconteceu é que por mais que às vezes as pessoas queiram agir de uma determinada maneira, às vezes as coisas saem do controle e isso é a vida. Tenho lidado com essa questão do controle. Sei que é uma dificuldade minha e que NÃO DÁ pra controlar os nossos atos, pois SENTIMOS e sentir é muito mais forte do que qualquer outra coisa.


P.S: Assim como ela, várias vezes questionei seu comportamento e sua atitude e aí percebo de uma forma tão simples que não dá pra controlar tudo. A vida toma seu curso.