"Não posso mais." Foi assim que eu me despedi dela. Tinha vontade de gritar e sair correndo daquele lugar que naquele momento me aprisionava. E que sensação estranha era aquela: estar no mesmo lugar que há um tempo era um dos melhores lugares do mundo. Era naquela cama em que o meu corpo se encontrava com o dela de todas as formas.
Os meus amigos costumam dizer que quando a gente procura uma mulher nós temos três requisitos a serem preenchidos: a puta, a mãe e a amiga. Não acreditava muito nisso, até perceber que com ela eu poderia atender a todas essas necessidades.
Primeiramente eu a desejei e foi definitivo para que o macho em mim quisesse conquistá-la. À princípio ela exitou, mas achava que era um joguinho de conquista e eu até achava charmoso. Investi, insisti e finalmente depois de algum tempo eu a possuí. Me senti como um animal conquistador que consegue amansar a fêmea. Digo nesses termos porque inicialmente era isso que me levava à ela.
Foi muito bom estar com ela e depois desse primeiro momento juntos a vontade de repetir só aumentava. Mas eu não podia dar minha cara assim tão à tapa. Era necessário o jogo clássico do "eu procuro quando e se ela procurar". Mas não resisti. E também nem era tão necessário, afinal eu era o homem da situação e nessa sociedade que se diz moderna, nós ainda temos o direito de conquistar e elas esperam pela nossa vontade.
Pudemos estar cada vez mais próximos e ela foi mostrando as suas outras qualidades e dessa vez devo concordar com meus amigos. Eu queria a mãe. Aquela que podia além de me satisfazer na cama preencher as minhas necessidades de "filho". Era atenciosa, carinhosa, doce e além do mais sempre tentava me surpreender, fosse com uma jantar que não era esperado ou com uma poesia recitada ao pé do meu ouvido. Ah...
Mas eu não queria me envolver. Desde o início eu só queria alguém para me fazer companhia (de vez em quando) na minha solidão, porque eu sou do mundo e gosto da minha solidão (às vezes). Mas nem sempre, ou quase nunca as coisas saem do jeito que a gente esperava!
Continuei com ela, e ela também nem percebia nada porque eu estava em um ótimo momento e talvez inconscientemente eu mostrei o meu melhor. Mostrava que gostava muito de estar com ela e ligar ou comunicar por mensagens já não era o suficiente. Eu queria o cheiro, a pele, o gosto e principalmente Ela.
Eu contribui e deixei que ela também mostrasse o melhor de si. Ela mostrou-se inteira e deixou os seus sentimentos em minhas mãos.
Deparei-me então, com a amiga, aquela que além de me saciar inteiramente também compartilhava gostos similares e um intelecto invejável. Eu nunca havia me deparado com uma mulher tão "completa". Conversava sobre literatura, música, filmes com a mesma tranquilidade que falava sobre línguas, curiosidades, psicologia, filosofia., e além de tudo não era chata! De um senso de humor invejável.
Apesar de estar tudo tão bom aquela "completude" começou a me angustiar. Irônico, não? E você pode me perguntar o porquê. E eu também não conseguiria explicar. Talvez tomar consciência que as coisas estavam evoluindo e estranhamente sem pressas, me assustava. E era esse o lugar que eu gostaria de estar? De certa forma, sim. Mas talvez não. Será que eu conseguiria me a ver com essa mulher? Talvez no momento que eu me encontrava eu só queria a puta e nada mais.
A minha solidão me pertence e eu ando só. Mas eu queria ter a capacidade de estar com ela, de verdade. Ela é muita demanda para o meu caminhão. Se fosse mais chata ou pegasse no pé seria mais fácil me "livrar" dela.
Eu não queria conversar... homem odeia conversar sobre relação. Comecei a mudar, de propósito para que ela pudesse perceber e desistir de mim. Mas além de tudo, ela não era de desistir das pessoas.
Joguei a toalha e naquele mesmo lugar que eu tinha vivido tão boas experiências eu disse que não podia mais. Ainda me pergunto se fiz a coisa certa porque eu sinto a falta dela e isso tem aumentado a cada dia.
16 de fevereiro de 2013
Pauliane Godoy*
*texto escrito com o eu-lírico masculino.